Preâmbulo do Livro “O Evangelho à Luz Do Cosmo”

Meus Irmãos:

Paz e Amor.

O cidadão terrícola atinge o fim do segundo milênio, atirado à crista das ondas turbilhonantes de uma civilização eletrificada, servida por computadores e robôs, deslumbrada pelo transplante de órgãos e consagrada pela conquista da Lua. Mas, infelizmente, ela já não duvida de que se encontra à beira de implacável destruição provocada pelos excessos de ambição, ateísmo, orgulho e imoralidade. O homem moderno, exclusivamente preocupado com a saúde e a eficiência do seu equipo orgânico, procura extrair dele o máximo de gozo e prazeres ilusórios, embora ainda não saiba o que é, de onde vem e para onde vai. Requinta-se no vestir, comer e divertir-se. Ativa epicuristicamente todos os desejos e vive as mais indisciplinadas emoções, porém sem conseguir libertar-se do pelourinho das sensações. Através de uma vivência desnaturada e sem qualquer controle sensorial, confundindo a exploração insensata do seu corpo carnal com a autenticidade humana, o cidadão terrícola vive submisso ao primarismo de uma existência física, sem qualquer identificação com o espírito imortal. Abusando da mediocridade e transitoriedade dos prazeres carnais, ele caminha entontecido para o túmulo, copiando o turista de aparelho fotográfico a tiracolo, que fixa paisagens e edificações desconhecidas, mas não promove qualquer renovação íntima.

Graças à técnica avançada e à ciência quase miraculosa, o homem terreno atinge, na atualidade, o máximo na exploração dos sentidos e emoções. Eufórico pelos requintes modernos que lhe proporcionam o excesso de conforto e gozo material, atendendo-lhe as exigências mais epicurísticas* do organismo, envaidece-se pela facilidade e rapidez com que se move entre os pólos antípodas e as latitudes geográficas mais distantes do seu orbe. Certo de que dispõe de um poder incomum, então olvida Deus e ironiza a ternura comunicativa do apelo espiritual do Cristo-Jesus. Enriquece a visão com as paisagens mais exóticas e usufruídas panoramicamente das aeronaves a jato; faz o seu desjejum em NewYork, almoça em Lisboa e ceia em Paris, mas, infelizmente, continua estático em relação à própria evolução do seu espírito imortal.

Graças aos recursos mágicos da televisão refletida pelos satélites em órbita, o homem apercebe-se instantaneamente dos progressos da arte moderna, das recentes descobertas científicas, dos mais avançados conceitos de filosofia e potencializa o seu cérebro pelas incessantes revelações da cibernética, enquanto ainda não sabe por que existe. Paradoxalmente, requinta o meio externo onde vive, multiplicando conhecimentos e inventos da vida transitória e não se liberta da condição de um fantoche preso aos cordéis do instinto.

Malgrado a era dos computadores e da conquista da Lua, além da ebulição de idéias e conceitos incomuns, que consagram gênios, filósofos e cientistas de alto gabarito, o homem civilizado e orgulhoso do século XX ainda não se livrou do arcabouço rígido e brutal do troglodita. Movendo-se no cenário do mundo atual, como cidadão bem condicionado, em sua intimidade ainda grita o ser pré-histórico. Apesar do desesperado esforço para adaptar-se às regras, convenções sociais e aos costumes que esquematizam a vida civilizada, dois terços da humanidade terrícola têm agido de modo tão cruel, cínico, brutal, desregrado, desonesto e imbecil, características que remontam a acontecimentos próprios do homem das cavernas.

Embora o homem terrícola alardeie um senso de justiça superior, incentive os mais avançados progressos de filosofia e psicologia em favor da higidez mental, detenha poderes técnico-científicos que ultrapassam as faculdades mágicas das fadas e dos gênios de antanho, ele ainda não passa de um desventurado açougueiro, que talha e esfrangalha a carne humana nas charqueadas das lutas fratricidas, em defesa de retalhos de pano patriótico e de limites de terra que só pertencem a Deus. Em sua insânia mental e primarismo espiritual, o poder público, então, arrebanha e seleciona os jovens mais sadios e perfeitos de sua pátria; depois os uniformiza e os submete a treinos específicos de belicosidade, e os envia para os matadouros das guerras carniceiras, onde eles decepam mãos, braços e pés, mutilam as orelhas, deformam as faces e vazam os olhos, desfigurando a fisionomia que Deus modelou para refletir a sabedoria e a ternura da alma eterna.

Em seguida às porfias sangrentas que massacram e esfrangalham, outros homens vestidos de branco acodem pressurosos, retomam os mutilados dos matadouros fratricidas e, na tarefa piedosa e sacerdotal de “consertos ao vivo”, ajustam-lhes braços, pernas e mãos, substituindo os autênticos por membros artificiais e genialmente eletrificados. Nos mais desgraçados e vitimados pela cegueira, colocam-lhes olhos de vidro tão perfeitos, que até parecem “vivos”. E nos infelizes de carnes esfaceladas, ossos fraturados e nervos lesados, enxertam-lhes tecidos e retalhos extraídos de partes menos visíveis.

Sem dúvida, somente as criaturas ainda estigmatizadas pela era paleolítica serão capazes de praticar essa abominável, insensata e cruel atividade enfermiça de mobilizar a matéria-prima humana mais perfeita e lançá-la depois sob as bombas e metralhas fratricidas, transformando-a num molambo vivo e teratológico para uma vivência circense no seio das metrópoles. Desfigurada propositadamente pelos imperativos de guerra, a “melhor” juventude de um povo transforma-se em farrapos vivos recauchutados pela medicina. Na era pré-histórica, os monstros antediluvianos eram caçados e destruídos pelos trogloditas espertos e corajosos. Hoje, os homens do século XX, malgrado a sua civilização milenária, o advento da cibernética e do controle atômico, são caçados e triturados facilmente sob as patas de aço dos monstros modernos, que vomitam fogo e chumbo pulverizando infelizes criaturas. A vida humana civilizada ainda é tão insegura e precária,que basta um paranóico fustigado por delírios messiânicos acicatar as paixões belicosas de um povo, para logo aumentar o índice demo gráfico da população mutilada e ter a lógica resultante dos matadouros fratricidas.

“O Evangelho à Luz Do Cosmo” - Hercílio Maes/Ramatís

Sugestão de Leitura: “Sob o Signo de Aquário” – Roger Bottini Paranhos

*epicurismo: 1 Sistema filosófico de Epicuro, filósofo grego (341-270 a. C.). 2 Sensualidade. 3 Desregramento de costumes.

Deixe uma resposta

Busca Rápida