Livro “Os Filhos das Estrelas – Memórias de um Capelino”

“O mundo é um palco e homens e mulheres, meramente atores.”

Shakespeare

Autor: Maria Tedora R. Guimarães

Para os antigos gregos e romanos, quando as almas retornavam do além para renascer entre os homens, precisavam atravessar as águas do Rio Letes, o que causava o esquecimento das memórias da alma. “Beber das águas do Letes” significou sempre, na mitologia e literatura clássicas, o esquecimento da vida pregressa. Um belo símbolo da sabedoria antiga para o imprescindível bloqueio de memória que antecede nossos retornos ao palco do mundo, neutralizando o peso consciencial de milhares de encarnações pretéritas.

A vida, esse entra e sai de existências e retornos aos bastidores, com troca incessante de figurinos e scripts, nada mais é que uma encenação do Teatro Cósmico, onde se aprende atuando, diante das vaias e aplausos dos colegas, numa peça cósmica intitulada “O Despertar da Consciência”.

Muitas vaias, ovos e tomates depois, traduzidos em dor, infelicidade, males físicos e psíquicos, começamos a suspeitar de nossa atuação. Atravessar o palco desastrosamente, destruindo cenários e figurinos dos colegas, não rende aplausos.

E quando as vais (leia-se dores) se tornam insuportáveis e não sabemos como corrigir, sequer definir as causas?

Podemos acessar o vídeo de nossas vidas passadas, identificando e reformulando os vícios de interpretação que se tornaram crônicos, fazendo-nos candidatos reincidentes a vaias e assobios, e até saídas estratégicas pela porta dos fundos.

A história da trajetória de nossas almas é bastante similar. Como magos da sombra, querendo impor-nos a todo custo: enganamos, matamos, torturamos reinamos, servimos, fomos egoístas e indiferentes, orgulhosos e tirânicos. Fomos nobres e mendigos, andarilhos e guerreiros, sacerdotes e ladrões; eventualmente salvamos vidas, mas muito mais vezes as tiramos; sofremos bastante, mas muito mais fizemos sofrer. E, se estamos hoje aqui, lendo esse texto, muito provavelmente já conseguimos chegar ao ponto de mutação em que a casca mais dura de nosso egoísmo foi substituída pela membrana semipermeável à fraternidade.

Desde que o mundo é mundo, os homens amam ouvir histórias uns dos outros. Há algo de mágico no contar histórias de homens a outros homens, talvez porque reproduza o mecanismo do Teatro Cósmico.

Mariléa de Castro

prefácio do livro “Os Filhos da Estrelas” da Dra. Maria Teodora Ribeiro Guimarães


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