Maria


Como legionário romano em Jerusalém, eu a vi e encantei-me com sua doçura, sendo impossível desde então esquecê-la, porque o amor ao que é belo e puro enche a alma de suave enlevo. Guardei a imagem de seu rosto angelical como uma relíquia em contraposição aos quadros apavorantes das guerras cruéis.

Precisava permanecer longe da família por motivos profissionais, naquela terra infeliz e rude, cheia de almas inconformadas a odiar com todo o vigor os incautos dominadores colocados entre eles e sua tão ambicionada soberania.

Por mais belos e superiores em cultura e arte, por mais esclarecidos nas conquistas intelectuais da época, não passaríamos nós, os romanos, de simples intrusos, elementos de destruição e desgraça, diante do mais humilde filho do povo judeu tão cheio de orgulho em suas tradições.

Como colocar-me em situação de simpatia diante daquela alma fiel às suas crenças religiosas? — pensava ao observá-la.

Não havia em sua beleza a mais leve sombra de coqueteria feminina. Dir-se-ia tratar-se de um anjo, antes que de uma mulher. Caminhava com simplicidade, parecendo esquecida de si e do que a cercava. Digna filha de um povo que se dizia escolhido, seu próprio ser encarregava-se de clamar que era um ente cheio de nobreza.

Por muitos anos não pude esquecê-la. Instintivamente, estabelecia a comparação entre sua imagem e a de qualquer outra mulher que surgisse em meu caminho. Entretanto, encontrei um sincero amor na companheira que o destino me concedeu. Com seus cabelos ruivos, seus olhos claros e suas mãos carinhosas encheu minha vida de paz. Fui feliz e pude viver normalmente, cercando-a das atenções que alimentam um amor fiel na esposa dedicada.

Lembrava-me do meu sonho de rapaz como de um romance lido, que permaneceu na esfera mental, como recordação agradável. Homem maduro e realizado, encarava meus sonhos de jovem como pruridos de sentimentalismo que, inegavelmente, tiveram encanto em sua época. Cumpria fielmente meus deveres e possuía a recompensa da família bem abastecida e feliz.

Certo dia, fui chamado a cumprir uma ordem. Teria que participar da execução de um criminoso. Todas as medidas estavam sendo tomadas para reforçar a guarda, pois era o criminoso muito popular e temia-se algum distúrbio. Armei-me como convinha e pus-me a caminho. De passagem, olhei distraidamente a casa que me prendera os sonhos da mocidade e segui apressado em direção às obrigações do dia. Juntei-me aos companheiros e partimos em busca do prisioneiro.

Grande surpresa nos esperava! Deveríamos flagelar um homem que em nada se assemelhava a um criminoso. Mantinha-se digno e sereno como se fosse julgar a nós. Sentíamos como se devêssemos apanhar as chicotadas que lhe eram desferidas e havia um constrangimento geral com a situação inesperada. Libertamo-nos, logo que pudemos, certos de que jamais veríamos coisa semelhante. Mas entregue a novo julgamento, concluíram que era necessário ir até ao fim e pusemo-nos a caminho, contrafeitos, nós que já estivéramos em contato direto com a Sua personalidade inconfundível! Não entendíamos bem a finalidade daquilo, mas era preciso obedecer. Seguimos através as ruas da cidade onde a multidão nos cercava. Foi terrível aquele dia!… Parecia que todos os espíritos malignos saíram às ruas e nós éramos seus mandatários. Mais adiante paramos para auxiliá-Lo a levantar-se de sob o peso da cruz que carregava e, com a rudeza exigida pela situação, fizemo-Lo caminhar novamente.

Eis que surge, do seio da multidão, um grupo de mulheres e paro estarrecido! Vejo, com o semblante transtornado de aflição e carinho, aproximar-se de nós a eleita de meu coração.

Sinto-me imediatamente na condição do mais horripilante dos carrascos. O impulso de simpatia que me despertara o Condenado transforma-se instantaneamente em horror por mim mesmo e tenho ímpetos de fugir. Quero correr a socorrê-la e não tenho coragem! Permaneço qual estátua a observar a cena. Uma das mulheres aproxima-se do Condenado e enxuga-lhe o suor e o sangue, beijando-Lhe as mãos crispadas de dor e sofrimento. Neste momento alguém mais rude da comitiva executora afasta, asperamente, as recém-chegadas. Eu permaneço imóvel; não fosse o horror da cena, creio que todos teriam notado meu estado de estupor.

Procuro reagir, mas já não consigo olhar para o que faço. Meu pensamento está fixo na mulher que vi — a donzela meiga transformada em estátua viva de dor! Como poderia ajuda-la?

Sustar a condenação era impossível. E eu que ansiara, no passado, por estar junto a ela, desejaria que não me visse e que não estivesse presente! Não ousava sequer fitá-la, eu que sonhara com a sua presença e pusera em suas mãos a condição única para ser feliz na Terra!

Observei-a para que não fosse desrespeitada. Insensivelmente, acerquei-me do seu grupo, como que atraído pelos únicos seres que fossem dignos naquela turba. A dor não lhe roubava a maravilhosa vibração de anjo caído do céu. Continuava a caminhar como ser único na Terra. Compreendi então que meu sentimento em relação a ela era mais do que amor — era veneração. Por que destino cruel aquela que seria digna de figurar entre as primeiras de seu povo via-se assim espezinhada pela situação aviltante de mãe de um criminoso, embora tão sereno em Sua dor? Que problemas intrincados a teriam conduzido a sofrer desta forma?

Doeram-me as pancadas percutidas pelo martelo no madeiro da cruz. Sentia-me arrasado ao pensar como estariam penetrando fundo em seu coração feito para amar e não para ser trespassado por uma dor tão cruel. De pé, entre outras mulheres, parecia que carregava sobre si toda a dor do mundo e eu desejaria prostrar-me diante dela, implorando-lhe perdão para os que a faziam sofrer assim. Não sabia quais as culpas de seu Filho, mas estava certo que a ela nada poderia ser inculpado. Juraria que fora mãe dedicada, prestimosa e tal nobreza se irradiava também d’Ele, e facilmente viam-se os reflexos de uma afinidade angelical entre ambos.

Vi-a chorar e não a pude consolar. Amei-a com ternura ilimitada naqueles instantes; entretanto, vi-a engrandecida sem compreender sua real situação.

Sua figura humana não pôde inspirar-me a ponto de revelar-se única entre as mulheres que pelo mundo passariam. Estive diante dela genuflexo em espírito. Apreciei sua grandeza de alma e não sabia que presenciava o maior drama da história e que estava possuído do grande privilégio de contemplar a Mãe de Jesus! O amor profundo que me inspirava tinha origem no fato de ser um espírito de alta hierarquia que baixara à Terra, em missão de renúncia e Amor. Possuindo em alto grau semelhantes virtudes, bastaria um simples olhar seu para que os homens se sentissem guindados aos sentimentos mais elevados. Logo que não fossem dos mais embrutecidos, sentir-se-iam inspirados por seu meigo semblante feminino, cuja ternura jamais fora igualada.

Passou sobre a Terra como um suave rocio, que beija levemente as flores que toca, refrescando-as e tornando-as mais belas. Sua doçura era tal que me encantou e me manteve preso, apesar do turbilhão de paixões, à nossa volta, naquela tarde. Ao retirar-me de lá, estava convicto de que os condenados deveríamos ser nós e uma estranha ordem de ideias inverteu os valores da vida a meus olhos daí por diante. Já não possuía firmeza no comandar ou obedecer. Ansiava por alguma coisa que não saberia explicar e que me locava, fundamente, no olhar dela e de seu Filho. Por convicção íntima, sabia que o mundo seria melhor dirigido se quem estivesse nos tronos possuísse a brandura daqueles dois seres.

Por mais estranho que me parecesse, os sentimentos revividos de uma juventude longínqua não alteravam em nada o amor em meu coração pela companheira de existência.

Senti, assim, quão nobre é o amor verdadeiro, aquele cheio de idealismo. Vibra de forma tão generosa ao ser inspirado pelas almas puras, que não desaparece quando partilhado; ao contrario, incentiva quem o sente a dar-se, multiplicando-se para melhor doar-se. Inspirado na elevação de espírito que se irradiava de tal criatura, pude amar com mais firmeza a esposa que possuía, pois via agora em todas as mulheres um reflexo de sua grandeza d’alma. Predispunha-me, com sua simples recordação, a julgar que havia uma semente daquela grandiosidade de que era portadora, em cada mulher. Era um ideal sublime a ser atingido por todas e em todas passei a respeitar uma candidata às virtudes angelicais que identificara, sem dificuldade, naquela que conhecera tão superficialmente, mas cuja observação ligeira fora o suficiente para inspirar-me de forma tão elevada!

Soube mais tarde que não me enganara. Ela era de fato a mulher escolhida na espiritualidade, modelo divino de todas as outras.

Amo-a, como um legionário seu, hoje cheio de compreensão quanto aos deveres cabíveis em relação a este amor. Personagem obscuro de um drama que ainda não se findou, troco hoje os papéis e, em vez de contemplá-la penalizado diante de sua dor, ponho-me a serviço da Humanidade, por cujos erros também ela chorou. Cada gota de orvalho de seu pranto correu generosamente sobre o solo em que pisou e converteu-se em alimento para as almas que a amaram sem a compreender e que no presente procuram sentir a grandiosidade de sua missão ainda não terminada junto aos homens. Deixou sobre a Terra o perfume de sua passagem. Em sua personalidade inspiraram-se santos e poetas, pois os santos são os poetas da vida real. Sublimou-nos os sentimentos de amor. Deu-nos, em sua grandeza espiritual, o exemplo do que pode ser o toque feminino na vida do homem: dedicação, amor, grandeza moral. Elevou à categoria de anjo protetor a condição de mulher, que até então permanecia catalogada entre as propriedades prazenteiras do homem. Enfim, despertou entre nós o sentimento de grandiosidade que existe na missão de ser mulher ao cuidar, com suas frágeis mãos, d’Aquele que tem nas Suas a orientação do mundo!

Que mais belo destino poderão as mulheres desejar desde então do que, com sua aparente fragilidade, servir de sustentáculo para toda a Criação? Que outro ideal do que construir, na obscuridade do lar e no silêncio do seu coração, o caráter dos que sairão pelo mundo a servir, tendo a coluna mestra de seus sentimentos, sustentada pelas vigas do Amor, que aí foram introduzidas por doce influência materna?

Colaboradoras da vida, despertai para a grandeza de vossa situação! Sois as preciosas empresárias do Senhor. De vossas escolas anónimas de Amor saem, gerados em carne e em espírito, os embriões do futuro. Libertai-vos das falsas concepções da época que buscam destruir os nobres sentimentos femininos envolvendo-vos na perseguição de situações privilegiadas no terreno da animalidade! Os que sustentam que sois instrumentos de seu prazer exclusivista ignoram as sementes de vida superior que existem em vós. Mostrai-lhes que não sois somente agradáveis aos olhos, fazendo-os sentir que possuís aquele suave encanto que não sabem ainda avaliar, para compreender com exatidão a vossa condição feminina.

Negai-vos a estacionar na condição animalesca a que vos querem restringir. Irradiai às suas almas a grandeza do espírito negando-vos à submissão aos encantos fáceis da vida. Dai-lhes testemunhos suficientes de altruísmo e amor, repetindo-lhes à saciedade, que a esta missão tudo sacrificareis, pois viestes ao mundo para dar, a quem desejar, a oportunidade de vida e progresso que recebestes ao serdes recolhidas em vossos lares pelo aconchego do Amor materno.

Bradai aos quatro cantos do mundo: — “Somos mães! Esta é a missão que nos enobrece! Tudo o mais é secundário e virá por acréscimo. Como tal, sentimo-nos mandatárias imediatas do Senhor, pois entre Ele e nós há a ligar-nos a condição de criadoras e mantenedoras da vida! Que nos respeitem e que nos amem, por verem em nós as intermediárias e zeladores da existência!”

Um humilde servo de Maria,

DRACUS

Livro “Mensagens do Grande Coração” – América Paoliello Marques & Wanda Jimenez

Deixe uma resposta

Busca Rápida